Ibovespa: em meio a tensão doméstica, Treasuries em alta aumentam pressão no Brasil

03/03/2021

Autor:

Júlia Nascimento

*Conteúdo reproduzido – Matéria originalmente escrita por Jader Lazarini e publicada em Suno Notícias

 

Em meio a um cenário interno desafiador no Brasil, com atritos políticos, aumento de impostos sobre os bancos, disparada do dólar e o avanço da pandemia do novo coronavírus (Covid-19), o Ibovespa passou a enfrentar um outro fator preocupante nas últimas semanas: a disparada das Treasuries, títulos do Tesouro dos Estados Unidos.

As Treasuries são a referência de risco e percepção econômica do mundo. Para os integrantes do mercado global, as notas de 10 anos do Tesouro norte-americano servem para medir o sentimento dos mercados frente a qualquer tipo de incerteza.

Após iniciar o ano em 0,91% e atingir a 1,66% na última semana, a alta das das Treasuries pode representar riscos para os mercados emergentes, incluindo o Brasil, segundo Priscila Araújo, gestora de renda variável da Macro Capital.

O principal é o risco de uma debandada de recursos estrangeiros do país, pressionando o Ibovespa.

Este movimento seria o processo inverso do observado nos últimos meses, quando o Brasil foi muito beneficiado com a queda das taxas de juros em países desenvolvidos. Com o juro real negativo nesses países, mercados em desenvolvimento passaram a chamar atenção — até que os próprios também passaram a ter rentabilidade real negativa.

“O Brasil foi muito beneficiado nos últimos meses por uma migração de recursos pela migração de capitais para mercados emergentes. Quando você tem um aumento da taxa de juros nos Estados Unidos – ou a expectativa sobre elevação dela, por meio das Treasuries – naturalmente você tem um fluxo contrário para os países desenvolvidos”, afirmou a gestora.

As Treasuries são os papéis mais seguros do mundo, uma vez que o credor é a maior potência econômica do planeta. Quando há uma rápida reversão de perspectivas, é tocado um sinal de alerta.

Após três meses consecutivos de entrada líquida de capital externo, o mês de fevereiro terminou com fluxo negativo dos investidores estrangeiros na B3. O saldo líquido do mês ficou negativo em R$ 6,78 bilhões. O acumulado do ano, entrentanto, ainda é positivo.

Ibovespa e o desencontro entre investidores e Fed

Outro problema que pode ser causado pela alta das Treasuries nos EUA é uma instabilidade maior nos mercados de ações por aqui. Isso pode ocorrer devido ao cabo de guerra do mercado norte-americano, o mais desenvolvido do planeta, com o Federal Reserve (Fed), Banco Central do país.

“Mesmo com o Fed afirmando que não haverá aumento das taxas de juros no curto prazo, o mercado continua testando-o e estendendo a inclinação da curva de juros. Isso gera uma instabilidade nos mercados, onde não se sabe quando haverá uma inversão desse processo”, diz.

Segundo ela, essa instabilidade gera um risk off, ou seja, a retirada de ativos mais arriscados das carteiras dos investidores. Nesse aspecto, investimentos ligados a emergentes tendem a sofrer mais, pois trazem maior risco de incerteza, mesmo que com potencial de valorização superior aos demais mercados.

“O aumento da aversão a risco dos mercados, mesmo que de forma sintomática, também pode prejudicar o Brasil”, pontuou a gestora do fundo multimercado. De certa forma, o Ibovespa já tem sentido esse impacto neste ano. Em 2021, o maior índice acionário da Bolsa brasileira cai cerca de 5%.

Alta das Treasuries pode ter aspecto positivo

Por outro lado, a alta dos títulos norte-americanos, mesmo que agite os mercados com sua volatilidade, pode ser resultado de um aspecto positivo para o mundo como um todo.

“Vale ressaltar que essa alta das Treasuries, mesmo causando ruídos no mercado, decorre de um fator muito positivo”, diz Nicolas Saad, sócio e gestor de juros e moedas globais na Persevera Asset Management, em entrevista ao SUNO Notícias.

“O que tem acontecido desde novembro é que as notícias da economia mundial têm sido bem positivas. O processo de vacinação se acelerou, o que pode reforçar a tese da recuperação da atividade”, afirma o especialista. “Com essa perspectiva de reabertura, as notas de 10 anos que chegaram a negociar próximas de 0,5% em agosto, começaram a ter uma alta expressiva.”

No entanto, para Saad, a alta das Treasuries pode, sim, representar um risco de pressão inflacionária no curto prazo. Porém, na visão da Persevera, no longo prazo, o cenário desenhado pelo Fed ainda está sob controle.

“É possível que a perspectiva para alta da inflação no curto prazo continue puxando a alta das Treasuries. Mas o que vemos para o longo prazo um pouco do que obvervamos nos últimos anos, de uma tendência deflacionária”, disse o especialista.

Para ele, “estamos passando por um período de normalização, o que não deve trazer um descontrole no longo prazo. No entanto, essa normalização naturalmente gera alguns ruídos de mercado”.

O impacto na precificação dos ativos

A visão é parcialmente compartilhada por Rodrigo Dias, sócio fundador da Butiá Investimentos. “Nós não conseguimos enxergar uma volta generalizada da inflação que pudesse fazer com que o Fed volte a subir a taxa de juros no curto prazo. Não nos parece claro que isso acontecerá”, disse Dias, pontuando, contudo, que o mercado vem testando a autoridade monetária nesse sentido.

O gestor afirma que o novo pacote de estímulos na ordem de US$ 1,9 trilhão, que já passou pela Câmara e deve ser aprovado no Senado norte-americano, pode acentuar esse processo, sobretudo por conta da compra de títulos pelo Fed, mas que a inflação não deve sair do controle.

Dias, entretanto, alerta para a importância das notas públicas dos Estados Unidos. As referenciais de 10 anos, sobretudo, são utilizadas na precificação dos ativos do mercado, no processo de valuation. Em uma das variáveis, para se estimar o custo de capital próprio, muitas vezes as Treasuries são utilizadas como papéis risk free, ou seja, que não têm nenhum risco.

Com o aumento das notas, o custo de capital das empresas é elevado e as companhias de alto crescimento, que guardam seu valor e maior lucratividade no futuro, são mais impactadas, uma vez que a taxa de desconto sobre os futuros ganhos passa a ser maior. Esse é o impacto prático nos mercados.

Não à toa a Nasdaq, Bolsa de tecnologia nos Estados Unidos, caiu quase 5% na última semana. “A alta liquidez dos mercados, que também traz à tona a conversa sobre bolhas em determinados ativos, estimula a alta das Treasuries por conta do temor pela inflação, mesmo que de forma sintomática”, diz.

Para Dias, a grande interrogação do mercado agora é se esse movimento visto nos últimos meses irá persistir — pressionando os mercados de risco — ou as Tresuaries devem se estabilizar. Independentemente do cenário, o Ibovespa acompanhará os fatores externos em complemento aos entraves domésticos.